Onze cristãos foram detidos pela polícia chinesa durante um pequeno encontro de leitura realizado por membros da Early Rain Covenant Church, uma das igrejas domésticas mais conhecidas da China.
A ação ocorreu na tarde de sexta-feira (11), por volta das 15h, em uma casa de chá no distrito de Wuhou, na cidade de Chengdu, província de Sichuan.
Segundo a ChinaAid, os cristãos idosos pertenciam à Enci Fellowship, ligada à Early Rain, e estavam reunidos para uma atividade de leitura quando policiais da Delegacia de Hongpailou chegaram ao local e levaram o grupo.
A maioria dos detidos tinha mais de 60 anos. Vários estavam na faixa dos 70 anos e apenas dois tinham cerca de 50 e 59 anos.
Preocupação com idosos
Membros da igreja relataram que muitos dos cristãos levados à delegacia possuem problemas crônicos de saúde.
Entre eles estava He Futao, de 73 anos, que já havia passado por uma cirurgia para retirada de um pulmão afetado por câncer.
Recentemente, ela também teria desmaiado e precisado receber atendimento médico de emergência.
Familiares e membros da igreja permaneceram do lado de fora da delegacia aguardando informações sobre o grupo.
Por volta da meia-noite, uma ambulância chegou ao local, aumentando a preocupação de que algum dos idosos pudesse ter apresentado um problema de saúde durante a detenção.
Na ocasião, as temperaturas em Chengdu estavam em torno de 15°C. Um membro da igreja conseguiu convencer os policiais a permitir a entrega de duas peças de roupa para os cristãos que permaneciam no interior da delegacia.
Quando familiares perguntaram quando os detidos seriam libertados, policiais disseram que a situação seria resolvida dentro de 24 horas e alegaram que havia uma “investigação sobre um culto” em andamento, sem fornecer mais detalhes.
Dois cristãos permanecem detidos
Até as 10h de sábado (12), nove dos 11 cristãos haviam sido libertados.
No entanto, o presbítero Wu Wuqing e o irmão Shen Xiaoqing permaneceram sob custódia.
Segundo notificações recebidas pelas famílias, os dois foram acusados de “organizar ilegalmente atividades de proselitismo”.
Wu e Shen receberam pena de dez dias de detenção administrativa. Wu também foi multado em 500 yuans (cerca de R$ 383), enquanto Shen recebeu multa de 300 yuans (cerca de R$ 230)”.
O presidente da ChinaAid, pastor Bob Fu, condenou a ação das autoridades e classificou a detenção de cristãos idosos durante uma reunião pacífica de leitura como parte da “guerra contra a liberdade religiosa” promovida pelo Partido Comunista Chinês.
Anos de perseguição
A Early Rain Covenant Church enfrenta forte perseguição das autoridades chinesas há vários anos.
Em dezembro de 2018, uma grande operação policial levou à prisão de dezenas de membros da igreja. Seu pastor, Wang Yi, foi posteriormente condenado a nove anos de prisão sob acusações de “incitar a subversão do poder do Estado” e realizar “operações comerciais ilegais”.
Desde então, membros da congregação em Chengdu e outras regiões da província de Sichuan têm denunciado vigilância, interrogatórios, prisões e interrupções de reuniões cristãs.
Em janeiro deste ano, policiais de Deyang prenderam membros da igreja, incluindo o presbítero Li Yingqiang, o pregador Dai Zhichao e o diácono Jia Xuewei. Alguns deles passaram a enfrentar acusações relacionadas à “subversão do poder do Estado” e à organização de reuniões consideradas ilegais pelas autoridades.
Após a invasão policial de um culto, líderes, fiéis e crianças são detidos em Sichuan, na China. (Foto: ChinaAid)
Em junho, outra operação policial impediu mais de 100 membros da igreja, incluindo crianças, de participarem de um encontro em um hotel. Na ocasião, 32 cristãos ficaram detidos por mais de 12 horas.
Diante das constantes operações, os membros da Early Rain passaram a realizar encontros em grupos menores. Mesmo assim, segundo a ChinaAid, as ações policiais continuam.
Embora a Constituição chinesa estabeleça a liberdade de crença religiosa, igrejas domésticas que não integram estruturas religiosas reconhecidas e controladas pelo Estado enfrentam severas restrições.
A Early Rain Covenant Church se recusa a integrar o Movimento Patriótico das Três Autonomias, organização protestante oficialmente reconhecida pelo governo chinês.
Segundo Bob Fu, autoridades locais têm usado detenções de curta duração, assédio administrativo e acusações relacionadas à segurança nacional como estratégias para enfraquecer os vínculos comunitários e a estrutura da igreja.
Até a publicação da denúncia, as autoridades de segurança pública de Wuhou e a Delegacia de Hongpailou não haviam se pronunciado publicamente sobre o caso.